“Vozes de burro não chegam ao céu”

“Vozes de burro não chegam ao céu”

11 Setembro, 2017 Não Por Pedro Sousa Coelho

Antes do início da Liga dos Campeões, o SL Benfica venceu o Portimonense em casa por 2-1. O melhor deste jogo foi, sem dúvida, o resultado, dado que a equipa da Luz protagonizou uma das piores exibições dos últimos meses, que poderia, facilmente, ter resultado num desfecho diferente.

O SL Benfica apresentou-se frente aos seus adeptos sem Jardel e Fejsa (que continuam lesionados) e Grimaldo, que ainda não constitui opção. Qualquer um destes jogadores é titular na equipa do tetracampeão, pelo que um onze sem eles será sempre mais fraco. No entanto, não foi por causa destas ausências que o SL Benfica jogou como jogou, dado que, os substitutos diretos – Lisandro, Eliseu e Samaris – não foram os principais problemas dos encarnados.

O que faltou então ao SL Benfica? Em primeiro lugar, faltou Pizzi. O jogador português, dispensado da Seleção por lesão, esteve quase sempre à margem do jogo, perdendo inúmeras bolas, o que não é nada comum. Cada vez mais, percebe-se que existe um SL Benfica com Pizzi e outro sem Pizzi. As diferenças de qualidade são de tal forma acentuadas que o jogador tem de ser sempre opção. Quando não está em dia bom, temos uma equipa totalmente diferente; e isso notou-se, claramente, na última sexta-feira. Em segundo lugar, faltou Luisão. O capitão encarnado já teve, como se sabe, melhores dias. A idade já não lhe permite correr como corria e isso viu-se, sobretudo, no lance do golo do Portimonense. Não se pode exigir tanto a Luisão, mas o problema é sempre o mesmo: o SL Benfica não dispõe de alternativas viáveis para essa posição, o que leva a que o eixo central da defesa constitua uma dor de cabeça para Rui Vitória. Por fim, faltou ataque. A dupla Jonas/Seferovic protagonizou um arranque de campeonato espetacular, fazendo quase esquecer os problemas existentes na defesa. No entanto, Seferovic tem vindo a desaparecer (não marcou nos últimos dois jogos) e Jonas, mesmo sendo o melhor marcador do campeonato, precisa do melhor Seferovic para jogar a 100%. Ainda assim, não é este setor que complica as contas de Rui Vitória. Afinal, para esta posição, existem Jimenez e Gabriel Barbosa.

Em resultado destes três fatores, assistimos a um SL Benfica ainda desconhecido esta época. A equipa nunca soube controlar o jogo frente a um Portimonense com a lição muito bem estudada. Mesmo a jogar com menos um jogador, a equipa de Vítor Oliveira soube enfrentar o SL Benfica olhos nos olhos, nunca deitou a toalha ao chão, nem se refugiou em autocarros. A jogar assim, o Portimonense promete constituir um desafio muito complicado para qualquer adversário.

Antes de concluir a análise a este jogo é importante tocar num tema sensível, do qual me tenho tentado afastar nestes artigos, mas que, esta semana, não vou conseguir evitar.  Falo obviamente da arbitragem. A época 2017-2018 em Portugal é a primeira a usar o vídeo-árbitro (VAR). Este instrumento, mesmo que resolva, de vez, a questão dos foras de jogo (ou assim se espera), apresenta ainda uma grande fragilidade: está, igualmente, dependente da avaliação de uma pessoa, o vídeo-árbitro, que faz a interpretação dos lances determinantes; mas essa interpretação pode não ser a correta. Desta forma, o VAR pode contribuir para agravar alguns dos problemas do futebol, reforçando situações escandalosas. Acima de tudo, tem-se verificado no futebol uma falta de coerência extrema. E isso notou-se, mais uma vez, este fim-de-semana.

No jogo do SL Benfica existiram lances polémicos como o golo do Portimonense, que devia ter sido invalidado, uma vez que existe uma falta sobre o André Almeida, que não foi assinalada, e o penalti – e consequente expulsão de Hackman – que fez com que o Portimonense ficasse reduzido a 10. É certo que o lance sobre Salvio deixa muitas dúvidas. Ninguém o nega. Mas, tendo em conta outros lances idênticos, que foram assinalados nesta época e na anterior, não existe razão para contestação, especialmente quando essa contestação vem de Sporting e FC Porto, que beneficiaram de lances semelhantes (lembro-me, por exemplo, do lance que deu 3 pontos preciosos ao Sporting, no jogo da segunda jornada, frente ao Vitória de Setúbal, e do que iniciou a vitória do Porto frente ao Feirense, na época passada). Em qualquer um dos lances enunciados não existiu contestação por parte de responsáveis do Sporting (no lance do Feirense vs FC Porto) ou do FC Porto (no jogo Sporting vs Vitória de Setúbal), pelo que não se percebe porque é que essa contestação surge agora no caso do SL Benfica.

Mais, os dois rivais vão mais longe nos protestos, mencionando também o lance aos 89 minutos, no qual o Portimonense, já com dez jogadores, empata a partida, num lance que foi invalidado por fora de jogo. Tanto Sporting como FC Porto argumentam que o VAR não tinha acesso a linhas que permitissem a conclusão de fora-de-jogo (algo irónico, afinal este facto nunca pareceu interessar quando o VAR anulou, e bem, o golo do empate do Estoril frente ao Sporting). Francisco Marques, o diretor de comunicação do FC Porto, que, semana após semana, contesta todas as decisões de arbitragem que, no seu entender, beneficiam o SL Benfica (curiosamente nunca menciona lances alegadamente errados de outros clubes), publicou no Twitter uma imagem na qual altera as linhas de fora de jogo fornecidas pela Benfica TV, forjando um golo legal. Isto demonstra bem o mal-estar que o SL Benfica provoca aos responsáveis de outros clubes; para eles nada está correto, nem sequer as linhas de fora de jogo de um canal televisivo. Não existirão limites?

O SL Benfica podia ter perdido pontos este fim-de-semana. Não os perdeu graças a um golo memorável de André Almeida. A arbitragem não beneficiou o tetracampeão, dado que a única decisão errada foi a validação do golo dos algarvios. Mas sobre esse lance, os “defensores da verdade desportiva” nada têm a dizer. É triste que o futebol tenha chegado a este ponto, mas isso só torna a conquista do penta campeonato uma necessidade maior. E, para conseguir isso, o SL Benfica não pode repetir exibições como a do passado fim-de-semana. Já se percebeu que este ano existirão certos clubes que, fora o campo, tudo farão para impedir a festa encarnada. Ao SL Benfica restará não desperdiçar oportunidades. Exige-se, por isso, uma equipa mais forte e coesa já esta terça-feira frente ao CSKA de Moscovo. Só um desempenho à Benfica permitirá começar da melhor forma a caminhada na Liga dos Campeões. E no próximo sábado, que essa receita do sucesso se repita frente ao Boavista.