Qual é a melhor liga europeia?

Qual é a melhor liga europeia?

16 Junho, 2017 Não Por Gonçalo Ferreira da Silva

Nos últimos anos, em função da grandiosidade, do futebol-espetáculo e, sobretudo, do equilíbrio entre as equipas que lhe são intrínsecos, convencionou-se que a melhor liga europeia (e do mundo, mas não quero ser tão radical) seria a inglesa. Contudo, a minha perspetiva não é essa. Mais, é injusto para aquela que é, realmente, a melhor liga europeia continuar-se a fazer uma afirmação destas.

Como referi, a liga inglesa tem visto a sua popularidade crescer, nos últimos anos, em função de inúmeros fatores (em suma, os mencionados no último parágrafo). Sucede, no entanto, que, ainda que a Premier League seja, inegavelmente, um espetáculo para qualquer fã do desporto-rei, tal não é condição suficiente para que esta possa ser considerada, pelo menos, na atualidade, a melhor liga no panorama europeu.

Com efeito, pese embora a enorme competitividade interna, proporcionada por uma conjuntura financeira inigualável a nível mundial, a verdade é que, na hora de se aferir quais são, de facto, as melhores equipas europeias (e, consequentemente, as melhores ligas), os emblemas ingleses fraquejam. Já longe vão os tempos em que Manchester United e Liverpool eram presenças assíduas, pelo menos, nas meias-finais da Liga dos Campeões e, nas últimas cinco temporadas, apenas duas equipas inglesas chegaram a essa fase da competição, em vinte vagas possíveis – o Chelsea, em 2013/2014, e o Manchester City, em 2015/2016. Ora, para uma liga que se diz ser a melhor do mundo, considero os números referidos muito humildes. Para além disto, de referir que, no formato atual, que se encontra em vigor desde 1992/1993 (ou seja, já lá vão 25 edições), apenas por quatro vezes a prova de clubes mais prestigiada a nível mundial foi ganha por clubes oriundos de terras de Sua Majestade. Na Liga Europa, as prestações também não têm sido particularmente brilhantes, com duas vitórias – o Chelsea, em 2012/2013, e o Manchester United, esta temporada – em oito edições no atual formato.

O Manchester United foi a última equipa inglesa a vencer a Liga dos Campeões, numa final 100% inglesa

Assim, pesem embora os orçamentos estratosféricos e as equipas de elite a nível individual, o que se verifica é que os clubes ingleses não têm performances nas competições europeias à altura dos seus argumentos financeiros. Este ‘apagão europeu’ não quer dizer, necessariamente, que a Premier League não seja, a meu ver, o campeonato mais difícil e duro do velho continente (Guardiola que o diga). No entanto, da minha perspetiva, o que torna uma liga melhor em relação às outras não é a competitividade interna, ou inclusivamente a incerteza nos resultados até final, mas antes a forma como esta prepara as suas equipas para os momentos de confronto com as equipas de outras ligas. Neste sentido, a liga inglesa tem sido evidentemente ineficaz.

No panorama oposto, encontramos a liga espanhola, em franca ascensão no panorama europeu. Se, no nosso país vizinho, o campeonato nacional não é tão entusiasmante ou equilibrado como o inglês – verifica-se, efetivamente, um grande domínio do Real Madrid e, principalmente, do Barcelona -, o facto é que, nas competições europeias, as equipas espanholas dão cartas e esmagam, qual rolo compressor, a maioria dos conjuntos, sejam eles de que país forem, que lhes aparece pela frente. Deste modo, acredito poder-se falar, atualmente, numa hegemonia espanhola no que às competições europeias diz respeito. Vejamos o que sustenta esta minha tese.

Ora, depois de realizada uma pequena pesquisa, deixo-lhe, caro leitor, estes dados, relativos às últimas cinco edições da Liga dos Campeões: dez vagas em vinte possíveis, nas meias-finais, foram preenchidas por equipas espanholas (Real Madrid 5, Atlético de Madrid 3 e Barcelona 2); por quatro vezes, em cinco possíveis, equipas espanholas conquistaram a competição (Real Madrid 3, Barcelona 1); apenas numa edição (2012/2013, em que a final foi disputada entre os dois colossos alemães Bayern e Borussia Dortmund) uma equipa espanhola (pelo menos) não chegou à final. Poderia continuar, mas creio que estes dados são suficientemente esclarecedores acerca do poderio de nuestros hermanos, no passado recente da Liga dos Campeões, poderio este que se estende… à Liga Europa, competição que o Sevilla venceu em três épocas consecutivas (!) – 2013/2014, 2014/2015 e 2015/2016. Para além disto, é ainda interessante denotar que, por exemplo, o Celta de Vigo alcançou as meias-finais desta competição nesta última temporada de 2016/2017, o que mostra que não são só Real Madrid, Barcelona, Atlético de Madrid e Sevilla que se têm notabilizado, havendo efetivamente outras equipas com margem de progressão, bem montadas e orientadas. Desta forma, e perante estas evidências, torna-se difícil não conceber o campeonato espanhol como o melhor campeonato europeu da atualidade, em função da preparação para as competições europeias que as equipas que o disputam evidenciam.

Nos últimos anos, têm sido as equipa espanholas a dominar o futebol europeu

Se entrarmos, ainda, em comparações diretas entre o campeonato espanhol e o campeonato inglês, então, nesse caso, quaisquer dúvidas que ainda permaneçam ficam desfeitas: nas duas únicas vezes em que equipas inglesas chegaram às meias-finais da Liga dos Campeões nas últimas cinco temporadas, em ambas estas caíram aos pés de equipas… espanholas: em 2013/2014, o Chelsea foi eliminado pelo Atlético de Madrid, numa época em que o Real Madrid levou a melhor no final e, em 2015/2016, o Manchester City caiu aos pés do… Real Madrid, que viria, depois, a vencer novamente a competição.

Em suma, é por demais evidente o domínio espanhol do futebol europeu. Os tempos áureos do futebol inglês já há muito que acabaram e o trono foi recentemente ocupado por Cristiano Ronaldo, Lionel Messi e companhia. Assim, e volto a frisar esta ideia, não vejo a melhor liga como aquela que proporciona os melhores espetáculos ou que se destaca pelo equilíbrio interno, mas antes como aquela de onde as equipas saem de facto preparadas para lutar com os rivais de outros países – é nesses duelos que se vê quem tem estofo para os grandes momentos; quem é, de um modo mais simplificado, assertivo quando isso realmente interessa. Já dizia Thomas Samuel Kuhn que a ciência não pode ser analisada à luz de paradigmas científicos distintos – estes são incomensuráveis, isto é, incomparáveis e incompatíveis -, pelo que, e agora transpondo esta ideia para o futebol, a própria comparação entre campeonatos distintos não se justifica, quando cada um deles é dono de tantas particularidades que os tornam tão diferentes. Assim, apenas se pode comparar ligas no momento em que as equipas de países diferentes se confrontam efetivamente, daí eu sustentar a minha argumentação com base nos dados recentes relativos às principais competições europeias de clubes, nas quais o dito confronto ocorre.

Para terminar, de saudar o (aparente) ressurgimento do campeonato italiano no seio do futebol europeu, com a Juventus a chegar a duas finais da Liga dos Campeões nos últimos três anos e com o Nápoles a protagonizar uma prestação interessante esta temporada, na mesma competição. Em relação ao futebol francês, o Mónaco e o PSG parecem querer conquistar o respeito dos gigantes europeus. Já no tocante ao futebol alemão, temos sempre o Bayern, que é um crónico candidato a boas prestações europeias, com o sempre perigoso Borussia Dortmund à espreita. De facto, parece apenas faltar que os três grandes consigam, também eles, catapultar o futebol português para outros patamares…

Apesar das inegáveis potencialidades de outros campeonatos, a dúvida em relação à melhor liga europeia, na atualidade, estará sempre entre Espanha e Inglaterra. Esta é, contudo, uma dúvida, como referi ao longo deste artigo, desprovida de sentido, face às evidências expostas. Deste modo, é evidente que, atualmente, a melhor liga europeia é a espanhola, em função da hegemonia das suas equipas no âmbito das competições europeias. Ora, considerando que ainda há uma margem de progressão das próprias equipas espanholas, desconfio que, dificilmente, alguma outra liga possa, num futuro próximo, retirar todo o protagonismo que o campeonato espanhol conquistou ao longo das últimas temporadas. Bem, é esperar para ver…

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Este é um artigo de opinião que não traduz necessariamente a opinião do dabancada.com.