Opinião | Sarri e Premier League, um desafio recíproco

Opinião | Sarri e Premier League, um desafio recíproco

20 Julho, 2018 Não Por Gonçalo Ferreira da Silva

Por tradição, a Premier League tem-se assumido, porventura, como um dos campeonatos europeus com um estilo mais homogéneo e distintivo. De facto, as equipas britânicas associam-se, salvo raras exceções, a um favorecimento da dimensão física em detrimento da técnica, o que se assume, em larga medida, responsável pela espetacularidade e pela emoção inerentes aos jogos.

Ao longo das décadas, temos, contudo, visto também que as grandes equipas inglesas apresentam manifestas dificuldades em se afirmar no cenário europeu em virtude dos predicados técnico-táticos dos conjuntos espanhóis, italianos ou alemães, ou seja, o modelo que serve em Inglaterra não se estende à Europa ou, melhor, as equipas do continente parecem deter o antídoto para o frenesim insular quando se dá o confronto. Esta evidência atingiu o seu expoente máximo com a afirmação da ideologia do passe (o famoso tiki-taka), cultivada por Guardiola no Barcelona e posteriormente estendida à Roja (valendo-lhe dois campeonatos europeus e um campeonato do mundo), ideologia esta que vulgarizou por completo, durante anos, os princípios ingleses, especialmente nas competições europeias, mas também nos torneios de seleções, nos quais a Inglaterra sempre foi afastada com relativa facilidade.

Ora, se Guardiola (e também, de certa forma, os seus seguidores ideológicos, como Del Bosque) já haviam triunfado a nível externo, com títulos conquistados através da prática de um futebol elegante e categórico, faltava entrar na ‘boca do lobo’, como se diz na gíria, de modo que o triunfo fosse completo. Assim, foi tomando consciência dessa nuance que, em 2016, o técnico catalão trocou o conforto de Munique, cidade na qual iniciou um período hegemónico para o Bayern, pelos competitivos ares de Manchester, onde o City se lhe afigurava como o maior desafio, a todos os níveis, da sua (até à época) profícua carreira.

Na verdade, quando todos esperavam mais uma lição de um dos treinadores mais geniais que o mundo do futebol já conheceu, a primeira época ao serviço dos Citizens foi como um choque com a realidade para Pep: o Manchester City ficar-se-ia por um desapontante terceiro lugar, depois de terem sido desembolsados mais de 213 milhões de euros (!) na contratação de jogadores, de acordo com dados do portal Transfermarkt. O vencedor? O Chelsea de Antonio Conte, com um futebol pouco romântico, mas assertivamente calculista. Com efeito, o italiano vinha mais bem preparado para a realidade inglesa e acabou por servir de exemplo ao espanhol idealista. Não obstante as dificuldades, Guardiola manteve-se firme aos seus princípios e, na temporada transata, conseguiu o tão almejado título da Premier League, batendo uma série de recordes pelo caminho. Assim, verificou-se que o espanhol acabou por conseguir uma grande vitória ideológica em Inglaterra, com mais ou menos esforço.

Apesar de as ideias do futebol dominador terem prevalecido novamente, tudo leva a crer que o ex-jogador e ex-treinador do Barcelona terá a vida mais dificultada na próxima temporada. Efetivamente, o Mundial de 2018 pode ter marcado uma mudança de paradigma, com o mito da posse de bola difundido por uns a ser destruído sem dó nem piedade pelo cinismo de outros. De facto, foi isto que sucedeu à Argentina na derrota diante da França ou, com maior evidência, na vitória da Rússia frente à Espanha. Neste sentido, este campeonato do mundo pode ter fornecido a muitos treinadores por essa Europa fora as chaves para levar de vencida conjuntos que são, por natureza, mais dominadores.

Aqui, considera-se oportuna a entrada de Maurizio Sarri em cena… Próximo do ponto de vista ideológico de Guardiola, o técnico argentino de 59 anos, que só saltou para as luzes da ribalta há cerca de 3 anos, quando ingressou, de modo surpreendente, no Nápoles, é a grande figura desta década do jogar bonito em Itália. Através do seu modelo, apaixonou milhões por essa Europa fora, colocando os Partenopei verdadeiramente próximos do título como já não se via desde… Diego Armando Maradona. Conquanto tenha levado a sua equipa a praticar, para muitos, o melhor futebol em Itália, não conseguiu vencer um único troféu nas três temporadas que passou no sul do território transalpino, devendo tal servir de alerta para a próxima época, em que orientará um emblema com aspirações ainda mais ambiciosas, o Chelsea.

Neste contexto, pode-se considerar que a ida de Sarri para Londres encerra um desafio tanto para o próprio, como para a Premier League em si. Por um lado, o argentino vê-se forçado a vencer num cenário, como vimos, hostil para treinadores com a sua ideologia, pesando-lhe o facto de nunca ter vencido qualquer troféu na Serie A. Por outro lado, a chegada de Sarri pode (continuar a) colocar em causa, tal como Guardiola foi capaz de fazer, todas as tradições intrínsecas ao futebol britânico, onde, como referido, a ‘lei da força’ tem atacado a ‘força da técnica’. De salientar ainda que o Rússia 2018 poderá trazer algumas surpresas a uma das ligas mais excitantes do planeta, tornando este desafio recíproco numa verdadeira caixinha de surpresas. Veremos quem vence este braço de ferro: se Sarri e as suas ideias ou se a Premier League e o futebol atlético.